1. Menos 1000 passos do que há uma década
Iwata:
Antes de mais, muito obrigado por teres vindo hoje a Quioto.
Miyachi:
O prazer é meu.
Iwata:
Devo explicar que o Dr. Miyachi do Instituto Nacional de Saúde e Nutrição1 teve a amabilidade de ser consultor do Wii Fit Plus.
| 1 | O Instituto Nacional de Saúde e Nutrição foi estabelecido pelo Ministério dos Assuntos Internos do Japão em 1920. É um órgão oficial encarregado de melhorar os padrões da saúde pública levando a cabo investigações e inquéritos relacionados com a saúde da população japonesa, a sua alimentação e os seus níveis gerais de nutrição. |
Miyachi:
Envolvi-me na última metade do desenvolvimento do software e, na verdade, usámos o Wii Fit Plus para medir a intensidade de exercício2 de cada treino, para que os utilizadores soubessem quantas calorias tinham queimado, e também demos alguns conselhos para combinar os vários treinos.
| 2 | Refere-se à relação entre a frequência cardíaca calculada durante ou imediatamente a seguir aos exercícios físicos e a frequência cardíaca máxima. Expressa-se através de um valor numérico que as pessoas podem usar para medir as suas capacidades físicas. |
Iwata:
Gostava de te pedir que falasses pormenorizadamente sobre isso mais tarde nesta entrevista, se não te importas. Para começar, posso perguntar que tipo de investigação realizaste até agora e como acabaste por fazer a tua investigação actual?
Miyachi:
Está bem. Bom, licenciei-me no Instituto Nacional de Aptidão Física e Desporto em Kanoya3, a única universidade nacional especializada em educação física. Quando era aluno do liceu, queria ser professor de Educação Física e candidatei-me a essa universidade, que havia sido fundada nesse mesmo ano.
| 3 | O Instituto Nacional de Aptidão Física e Desporto da cidade de Kanoya, na província de Kagoshima, Japão, é uma universidade pública especializada em Educação Física e fundada em 1981. |
Iwata:
Então entraste no primeiro ano de existência do curso.
Miyachi:
Exacto, por isso muitos dos professores estavam incrivelmente entusiasmados e fizeram muito mais do que lhes era exigido ao dar-nos um nível de educação tão elevado.
Iwata:
Embora esse nível de paixão pela educação que encontraste tenha sido uma grande sorte para ti, por outro lado, provavelmente, também serviu para te levar numa direcção diferente do teu sonho de ser professor de Educação Física! (risos)
Miyachi:
Sim, exacto! (risos) Acabei por ter pouca escolha e tive de me dedicar aos estudos. Antigamente era jogador de râguebi e quando combinei a minha pesquisa com o râguebi, percebi como era interessante investigar o exercício físico.

Iwata:
Por curiosidade, quando jogavas râguebi, que parte do teu treino - e do mundo do desporto em geral - era de natureza científica e que parte era treino com base psicológica?
Miyachi:
O que queres dizer...? (risos)
Iwata:
Bom, quando eu estudava no liceu, houve uma altura em que era um membro dedicado da equipa de voleibol. Os clubes de desporto escolar da altura procuravam basicamente mostrar coragem e determinação.
Miyachi:
Então, não podiam beber água durante um treino, por exemplo?
Iwata:
Exacto, era precisamente isso! (risos)
Miyachi:
Sim, as coisas eram assim. Mas, depois, a chamada ciência do desporto tornou-se uma parte essencial dos clubes desportivos a partir da década de 1980, por volta da altura em que entrámos na universidade.
Iwata:
Compreendo.
Miyachi:
Penso que, provavelmente, isso foi positivo para mim. Após entrar na universidade, tive a oportunidade de realizar treinos com base em investigações científicas, por isso pude ver como é que o exercício tinha fundamentos científicos e teóricos. Depois, enquanto fazia mais experiências dessa natureza, fui fazer um mestrado e comecei a estudar a forma como o corpo das pessoas muda quando fazem exercício físico. Quando terminei o mestrado, fui para a Universidade Kawasaki de Bem-Estar Médico4 na província de Okayama. A princípio, chamava-se Universidade Médica Kawasaki e centrava-se na medicina, mas acabara de ser criado um Departamento de Saúde e Educação Física e, mais uma vez, dei por mim no primeiro ano do curso...
| 4 | A Universidade Kawasaki de Bem-Estar Médico é uma universidade privada de saúde e bem-estar cujas instalações principais se situam na cidade de Kurashiki, na província de Okayama, Japão. Foi criada em 1991. |
Iwata:
Pareces ter jeito para isso! (risos)
Miyachi:
Sim, tenho! (risos) Mas nessa altura também comecei a leccionar...
Iwata:
E quantos anos estiveste nessa universidade?
Miyachi:
Estive lá catorze anos. Durante esse tempo, trabalhei para conquistar o lugar de professor enquanto realizava a minha própria investigação. Depois, há seis anos, comecei a trabalhar para o Instituto Nacional de Saúde e Nutrição em Tóquio.
Iwata:
Podes explicar sucintamente que tipo de organização é o Instituto Nacional de Saúde e Nutrição?
Miyachi:
É um departamento de investigação sob a alçada do Ministério da Saúde, Trabalho e Segurança Social. Realiza investigações para melhorar a saúde geral da nação ao determinar que tipo de alimentação e regime de exercícios a população deve seguir.
Iwata:
E qual é o objectivo particular do trabalho que fazes?
Miyachi:
O meu papel no Instituto Nacional de Saúde e Nutrição é o de director de projecto de uma equipa que trabalha para desenvolver directivas de exercício. O meu objectivo é "construir directivas de exercício físico necessárias para melhorar a saúde da nação". Mas não posso simplesmente fazer uma investigação independente por mim próprio para atingir esse objectivo. Reúno pesquisas de todo o mundo e analiso-as, de maneira a que possam ser úteis para todos...
Iwata:
Então o teu objectivo é recolher relatórios e investigações de todo o mundo e, ao mesmo tempo, realizar a tua própria investigação, para depois criares directivas de exercício físico que possam ser recomendadas a qualquer pessoa no Japão.

Miyachi:
Isso mesmo. No entanto, como essas directivas são aquilo a que chamarias maior denominador comum, nunca será algo que possa ser recomendado a toda a gente.
Iwata:
Mas ao criar essas directivas, estás certamente a contribuir de forma positiva para o padrão geral de saúde do país.
Miyachi:
Sim, exacto.
Iwata:
Contudo, embora todos os adultos no Japão saibam que devem fazer exercício físico, por vezes, não são capazes de o fazer! (risos)
Miyachi:
Exacto, por vezes, parecem não ser capazes! (risos)
Iwata:
Por curiosidade, qual é a percentagem da população japonesa que faz exercício regularmente?
Miyachi:
Bom, é difícil definir com exactidão o que é exercício físico regular, mas uma definição diz que se trata de uma hora de exercício por semana ou, por outras palavras, aproximadamente duas sessões de meia hora por semana. Assim, podemos dizer que as pessoas que transpiram um pouco ao fazer exercício durante esse tempo fazem exercício regularmente.
Iwata:
Nesse caso, eu enquadro-me! Que alívio! (risos)
Miyachi:
(risos) Significa que 35 a 40% da população faz exercício regularmente. Ou, visto de outra maneira, 60 a 70% da população japonesa não faz exercício regularmente.
Iwata:
Compreendo.
Miyachi:
Há também outra maneira de medir o exercício que tem como critério o número de passos dados diariamente. De modo simples, calcula-se se damos ou não 10.000 passos por dia.
Iwata:
Ouvimos muitas vezes a expressão "10.000 passos por dia".
Miyachi:
Exacto. Podemos dizer que quem der 10.000 passos todos os dias é uma pessoa activa. Mas possivelmente nem 20% da população faz isso.
Iwata:
Quem tenha um emprego que obrigue a andar atinge os 10.000 passos por dia facilmente, mas diria que para quem se desloca para o trabalho e depois passa o dia sentado à secretária seria quase impossível caminhar tanto sem fazer um esforço deliberado.
Miyachi:
Correcto. Na verdade, investigámos qual a média de passos dados diariamente pelos japoneses. Descobrimos que os homens dão em média pouco mais de 7.000 passos por dia, enquanto as mulheres dão em média pouco mais de 6.000. Não está nem perto dos 10.000 passos por dia. Isso significa que os japoneses têm cada vez mais vidas sedentárias.

Iwata:
Dirias que, no geral, a sociedade segue essa direcção porque, embora as pessoas fossem mais activas no passado, a vida se tornou de certo modo mais conveniente?
Miyachi:
Sim, e penso que houve um momento de viragem há uma década. Nessa altura, os homens davam em média 8.000 passos por dia e as mulheres 7.000, o que quer dizer que davam mais 1.000 passos por dia do que actualmente.
Iwata:
A sério?
Miyachi:
Esse número começou a cair a pique há dez anos e a média de passos dados caiu de ano para ano desde então. Contudo, ao mesmo tempo, o número de pessoas que passa o seu tempo livre a jogar ténis, a ir ao ginásio ou a fazer exercício regularmente - e isso inclui usar o Wii Fit - aumentou lentamente. Mas o exercício físico feito ao caminhar ao longo do dia tem vindo a decrescer bastante.
Iwata:
Dirias que isso se deve ao dia-a-dia, que se tornou mais conveniente, e também às mudanças no estilo de vida das pessoas?
Miyachi:
Uma das razões é o desenvolvimento constante que vemos na Tecnologia da Informação.
Iwata:
Referes-te às pessoas que passam o dia a olhar para um ecrã de computador...
Miyachi:
Agora podemos fazer compras pela Internet sem ter de ir às lojas. Muitos dos percursos de autocarro e linhas de comboio que não dão lucro foram suspensos, por isso à medida que nos afastamos das cidades há cada vez mais pessoas com carro e a motorização da sociedade ao estilo americano torna-se mais evidente. Mas o maior factor é o número de pessoas que já não trabalha ao sábado, que aumentou bastante.
Iwata:
A maior razão é haver menos pessoas a trabalhar ao sábado? Isso é surpreendente.
Miyachi:
Apesar de ser positivo para os trabalhadores, quando éramos mais novos costumávamos trabalhar até às 13h de sábado. Chamávamos-lhe meio-dia. Isso agora é uma coisa do passado.
Iwata:
Agora ao sábado normalmente também não há escola.
Miyachi:
Exacto. Assim, a combinação dos três factores que referi teve um efeito cada vez mais evidente ao longo da última década e deu origem à situação actual.
Iwata:
Compreendo. Se permitirmos que a situação actual continue, haverá um risco maior de doenças relacionadas com o estilo de vida...
Miyachi:
A obesidade, em particular.
Iwata:
Então, dirias que existe actualmente uma crise no estado de saúde do país?
Miyachi:
Tenho perfeita noção de que estamos a meio de uma crise. É por isso que o meu objectivo não é apenas organizar directivas de exercício, mas sim lutar até ao fim da minha vida para que os japoneses façam mais exercício.
Iwata:
Então esse é o trabalho da tua vida.
Miyachi:
Sim, é. No mínimo, é o meu objectivo principal até chegar à idade da reforma.
2. Software que chama a atenção dos investigadores
Iwata:
Podes falar-me da natureza da tua investigação desde que começaste a trabalhar no Instituto Nacional de Saúde e Nutrição até te envolveres no projecto do Wii Fit?
Miyachi:
Investiguei os efeitos que o exercício e a actividade física tinham sobre os vários factores de risco de doenças cardiológicas, sobretudo ataques cardíacos e acidentes vasculares cerebrais.
Iwata:
Compreendo.
Miyachi:
Concentrei-me sobretudo no endurecimento das artérias, tentei determinar se o exercício e a actividade física eram ou não benéficos nesses casos.
Iwata:
Que resultados obtiveste na tua investigação?
Miyachi:
De uma maneira geral, pensa-se que o exercício serve para prevenir doenças como ataques cardíacos e que, ao mesmo tempo, torna as artérias menos duras. Mas infelizmente, numa pesquisa bastante abrangente, descobri que isso não acontece, não basta dizer que qualquer exercício é benéfico.
Iwata:
Então depende do tipo de exercício?
Miyachi:
Exacto. Por exemplo, os jogadores de futebol americano usam máquinas de exercício para aumentar a força da parte superior do corpo. Quando fazem esse tipo de treino, concentram a força toda...
Iwata:
Sustêm a respiração, por isso não estão a usar oxigénio.
Miyachi:
Não estão a usar oxigénio. Se nos dedicarmos a esse tipo de treino muscular anaeróbio, as nossas artérias vão endurecer.
Iwata:
Então serve para endurecer as artérias?
Miyachi:
Exacto.
Iwata:
Então para melhorar a saúde, o treino muscular não é necessário...
Miyachi:
Bom, nem todos os seus efeitos são benéficos. Claro que não se pode dizer que é todo prejudicial. Esse tipo de treino tem muitos benefícios.
Iwata:
Muitas vezes ouvimos dizer que se não tivermos muito músculo, o metabolismo basal diminui e é mais provável que ganhemos peso. Isso quer dizer que o treino muscular pode ser importante, mas não é boa ideia fazer apenas exercícios em que tenhamos de suster a respiração.
Miyachi:
Exacto. Não devemos fazer apenas esse tipo de exercícios. Muitas pessoas tiveram a amabilidade de mostrar interesse na minha investigação e, quando criaram directivas para exercícios físicos, puseram um pouco de parte a ideia errada de que todo o exercício nos faz bem. Penso que a importância de reunir evidências objectivas para determinar que tipos de exercícios são bons e que tipos são maus começou a entrar gradualmente na mentalidade de todos...
Iwata:
Usaste casualmente a palavra "evidência". (risos)

Miyachi:
(risos)
Iwata:
Não ouvimos muitas vezes esse termo no nosso dia-a-dia. No mundo da medicina, penso que a evidência se refere a realizar exames práticos e a reunir estatísticas de causas físicas e efeitos que dão resultado, para obter provas que fundamentem as conclusões.
Miyachi:
É verdade.
Iwata:
Estou correcto?
Miyachi:
Acertaste em cheio!
Iwata:
Existe também o termo EBM, que significa "medicina baseada na evidência".
Miyachi:
Exacto. Refere-se à medicina baseada na evidência recolhida através de investigações académicas. Há essa maneira de pensar. Contudo, os académicos têm tendência para olhar para as suas investigações e dizer: "Esta é a resposta correcta!" No entanto, eu tenho o dever de ver a minha investigação de um ponto de vista céptico: "Aquilo que o Miyachi diz é mesmo verdade?" Isso significa que tenho de estar ciente do que os outros investigadores fazem e do tipo de dados que produzem. Ao reunir tudo isso, posso começar a ver qual é o caminho correcto a seguir.
Iwata:
Compreendo. Bom, para mudar um pouco de assunto, diria que há muitas pessoas que, embora tenham praticado desporto a dado momento, quando chegam à idade adulta estão ocupadas e não têm tempo para fazer exercício. Mas quando têm a oportunidade de o voltar a fazer, percebem de novo como é bom fazer exercício e transpirar.
Miyachi:
Sim, penso que é verdade.
Iwata:
Com isso em mente, parece-me que dar às pessoas motivação para fazer exercício, nem que seja uma só vez, pode ser importante. Com base na tua investigação, o que tens a dizer sobre isso?
Miyachi:
Do ponto de vista dos que fazem investigação nesse campo, essa é a área mais difícil de compreender.
Iwata:
A sério?
Miyachi:
Não conseguimos perceber porque é que algumas pessoas dão o primeiro passo e começam a fazer exercício ou, dito de outra maneira, porque é que certas pessoas não querem fazer exercício. É por isso que acabamos por dar conselhos apenas àqueles que querem fazer exercício, por exemplo...
Iwata:
E isso quer dizer que as pessoas que já eram saudáveis ficam ainda mais saudáveis...
Miyachi:
E as pessoas que não são assim continuam a ser pouco saudáveis.
Iwata:
É muito difícil criar essas oportunidades...
Miyachi:
Além disso, não percebemos o mecanismo físico que determina que algumas pessoas que fizeram muito exercício quando eram jovens não queiram fazer exercício quando chegam à idade adulta.
Iwata:
Para isso seria preciso analisar o carácter emocional da pessoa e a sua força de vontade, coisas que são relativamente...
Miyachi:
...pode ser preciso analisar elementos que estão ligados ao estudo do cérebro e da psicologia. Contudo, há substâncias como a nicotina dos cigarros, por exemplo, que alimentam o desejo de fumar. Mas não fazemos a mínima ideia dos factores que influenciam o desejo de fazer exercício físico. Assim, e apesar de não sabermos que mecanismo é esse, estamos a tentar encontrar maneiras de levar mais pessoas a fazer exercício.
Iwata:
É algo que sempre considerei muito misterioso. Se não formos capazes de fazer exercício durante algum tempo e depois fizermos um pouco, lembramo-nos que nos sentimos bem e, a maior parte das vezes, decidimos que queremos voltar a fazer.
Miyachi:
Talvez nesses momentos haja uma espécie de substância no nosso corpo...
Iwata:
Só não sei qual é! (risos)
Miyachi:
Podemos produzir uma substância ou então o teu cérebro recorda o prazer que sente, o que te leva a perceber que seria agradável continuar a fazer isso. Mas creio que existe mesmo uma substância no meio disto tudo.

Iwata:
Para começar, parece-me um pouco estranho que queiramos transpirar e ficar cansados.
Miyachi:
Isso tem algo de estranho. Penso que não poderíamos fazer isso se não houvesse algo que afectasse o nosso corpo. Não sei o que possa ser, mas dei-lhe um nome: "rakutin".
Iwata:
"Rakutin"? Da palavra "rakuchin" (termo que significa "agradável" ou "ir com calma" em japonês)? (risos)
Miyachi:
Isso mesmo! (risos) Quanto ao apetite, a investigação confirmou que, de uma forma simples, quando nos sentimos cheios após uma boa refeição libertamos uma hormona chamada leptina. A parte do cérebro conhecida como centro da saciedade, que controla o estômago, é estimulada para que as pessoas não sintam que têm de continuar a comer. Foi aí que fui buscar o termo "rakutin". Quando as pessoas querem ir com calma, podem libertar uma certa substância e deixam de querer fazer exercício. Se pudéssemos inibir o funcionamento desse "rakutin", as pessoas sentiriam muita vontade de fazer exercício!
Iwata:
(risos)
Miyachi:
Afinal o que é esse "rakutin"...? Pode ser uma molécula que nos dá vontade de fazer exercício ou, pelo contrário, pode ser um tipo de molécula que nos leve a não querer fazer exercício. Não sei bem o que é, mas penso que é essencial que nós, investigadores, descubramos. Penso que o trabalho que temos feito é uma oportunidade de continuar a investigar isso.
Iwata:
O que queres dizer?
Miyachi:
Software como o Wii Fit tem um grande potencial para motivar as pessoas a serem fisicamente activas. Ao investigar o que muda nos seus cérebros e corpos, podemos conseguir descobrir uma molécula como o "rakutin". Por outras palavras, ao analisar como os seres humanos alteram o seu comportamento, o Wii Fit e a consola Wii são interessantes para investigadores como eu.
3. O Impacto das palavras de Wiibo
Iwata:
Quando tomaste conhecimento do Wii Fit?
Miyachi:
Para ser sincero, no início pensei apenas: "Oh, então agora inventaram algo assim".
Iwata:
Começou a ser vendido em Dezembro de 2007.
Miyachi:
Há cerca de dois anos, então. Comecei a ter mais informações sobre o Wii Fit por volta de Outubro ou Novembro de 2008. Nessa altura, o jornal Nikkei queria investigar o tema do aumento de peso no período do Ano Novo e foi aí que tive o primeiro contacto com o Wii Fit.
Iwata:
Então foi há pouco menos de um ano.
Miyachi:
Só há cerca de dez meses decidi fazer a minha própria investigação sobre o Wii Fit, mas desde que o experimentei que me envolvi imediatamente.
Iwata:
Qual foi a tua primeira impressão quando usaste o software?
Miyachi:
Pensei que estava muito bem concebido.
Iwata:
Que elementos em particular te levaram a pensar isso?
Miyachi:
Não estava apenas a investigar, estava também a trabalhar com pessoas que tinham um risco elevado de várias doenças derivadas do estilo de vida, incluindo a obesidade, por isso tive muitas oportunidades para lhes dizer que tipos de exercícios seriam benéficos para elas. Foi aí que percebi que havia muitas pessoas que, como disseste há pouco, sabiam que deviam fazer exercício, mas não eram capazes de o fazer. Enfrentei muitas vezes essas pessoas, perguntei a mim mesmo o que lhes devia dizer e de que maneira me devia exprimir, para que as minhas palavras tivessem algum efeito.
Iwata:
Compreendo.
Miyachi:
Depois, quando liguei a consola para começar o Wii Fit, o Wiibo5 disse muitas coisas, como: "Oh, olá. Há quanto tempo!" ou "Estás a esforçar-te imenso!" ou "Vais começar a esta hora?"
| 5 | Wiibo é uma personagem que aparecia no Wii Fit e era um Wii Balance Board antropomórfico. Wiibo tinha movimentos muito flexíveis e oferecia vários conselhos ao utilizador. |
Iwata:
Sim, coisas como: "Devias pesar-te todos os dias à mesma hora, sabias?"
Miyachi:
Bom, dizia muitas coisas assim e o que o Wiibo dizia não era muito diferente daquilo que eu dizia. (risos)

Iwata:
(risos)
Miyachi:
Pensei: "Isto foi muito bem concebido!" (risos) Mas como o Wiibo sabe com exactidão quando usámos o Wii Balance Board, com que frequência e durante quanto tempo, pode dizer as coisas acertadas no momento certo.
Iwata:
Exacto.
Miyachi:
No fundo partilhamos a mesma regra de ouro quando se trata de ensinar as pessoas. É essencial avaliar cada pessoa individualmente, medir a sua força, ter em conta a actividade que tem feito e qual é a sua situação e depois dar um conselho personalizado a essa pessoa. Por outras palavras, a avaliação e o conselho devem andar de mão dada.
Iwata:
Então, dás orientações adequadas a essa pessoa em particular.
Miyachi:
Com o Wii Fit, podemos pesar-nos diariamente, medir a nossa força física e calcular a nossa idade física, além de registarmos o tempo que passámos no Wii Balance Board. Com base nos resultados dessa avaliação, o Wiibo falava com o utilizador e dava-lhe a sua opinião. Por isso, a minha primeira impressão do Wii Fit foi pensar que era uma ferramenta que media os dados pessoais mais actualizados e encorajava o utilizador de uma forma personalizada.
Iwata:
Compreendo.
Miyachi:
Quando vi que era possível fazer isso sem o envolvimento de uma pessoa, foi um grande choque. Pensei: "Se calhar já não precisam de mim!" (risos)
Iwata:
Não creio que cheguemos a esse ponto... (risos)
Miyachi:
Teve um impacto tão grande em mim que cheguei a pensar: "Se calhar não será preciso haver instrutores como eu..."
Iwata:
Claro que será preciso haver instrutores, mas ao mesmo tempo, quando temos o Wii Fit em casa, está pronto para usar a qualquer altura. Creio que isso é algo muito importante.
Miyachi:
Sim, é.
Iwata:
Pode haver instalações mais especializadas se formos a um ginásio e se gastarmos tanto tempo como gastaríamos no Wii Fit, o treino pode ser mais eficaz. Mas, no entanto, para ir até ao ginásio, mudar de roupa, fazer exercício, tomar banho, mudar de roupa novamente e voltar para casa, acabamos por perder muito tempo, comparado com o tempo que passamos a fazer exercício.
Miyachi:
Até chegar ao ginásio pode ser um grande incómodo.
Iwata:
É por isso que algumas pessoas continuam a ir ao ginásio e outras desistem. Mas mesmo as pessoas que desistem, com um Wii Balance Board montado na sala de estar, onde só têm de subir e fazer um pouco de exercício todos os dias, penso que são capazes de continuar. Desse ponto de vista, creio que o Wii Fit tem uma posição muito interessante.

Miyachi:
Creio que tens toda a razão. Por exemplo, imagina um pai que tem alguma barriga e que já não fica tão bem com uma camisola. Como podes imaginar, pode sentir alguma relutância em ir ao ginásio e fazer aeróbica ou ioga diante de toda a gente. Mas com o Wii Fit, pelo contrário, só tem de fazer um pouco de "hula hoop" de pijama depois de sair do banho. Quem pode estar contra isso?
Iwata:
Exacto! (risos)
Miyachi:
Além disso, podes fazer exercício quando te convier. O facto de poderes treinar de noite ou no teu dia de folga... Bom, no meu ramo, referimo-nos a essas barreiras que as pessoas sentem em relação ao exercício...
Iwata:
Então o Wii Fit, na verdade...
Miyachi:
Diminui significativamente essas barreiras.
Iwata:
Até agora, antes de fazer exercício, era sempre preciso ganhar energia para ultrapassar essas barreiras: "Muito bem! Vamos a isto!" Mas o que estás a dizer é que com o Wii Fit essas barreiras já foram diminuídas.
Miyachi:
No meu ramo, chamamos a isso um "pequeno passo". Sobretudo as pessoas que têm alguma relutância em fazer exercício, mesmo que digamos "segundo a nossa investigação, tem de fazer esta quantidade de exercício", de certeza que respondem: "Não sou capaz!" Por isso é realmente importante levá-las a dar o primeiro passo, por muito básico que seja o exercício. Nesse sentido, o Wii Fit cumpre na perfeição esse papel ao fornecer o "pequeno passo".
Iwata:
Compreendo.
Miyachi:
Bom, há um facto que me pareceu muito interessante. Quando investiguei o número de pessoas no Japão que frequentava ginásios, cheguei ao total de 2,8 milhões. Se adicionarmos as 800.000 pessoas que pertencem a clubes desportivos, como clubes de ténis ou de natação, chegamos a um total de 3,5 milhões. Penso que quando ouvires esse número, Iwata-san, vais perceber onde quero chegar. (risos)
Iwata:
Sim, de facto! (risos)
Miyachi:
3,5 milhões é mais ou menos o mesmo número de cópias de Wii Fit vendidas no Japão. O facto de o número de pessoas que paga para usar os equipamentos de um ginásio quase corresponder ao número de pessoas que tem um Wii Fit é uma estatística que considerei bastante interessante e que mostra o impacto enorme que o software tem tido e como afectou profundamente as pessoas...
Iwata:
Com o Wii Fit, há também lares onde é usado por mais do que uma pessoa.
Miyachi:
Então há mais pessoas a usar o Wii Fit do que a frequentar ginásios e clubes desportivos. Penso que foi precisamente por as barreiras serem muito baixas que foi tão bem aceite.
4. Como criar um guia para um estilo de vida saudável
Iwata:
Dr. Miyachi, tiveste a amabilidade de ser consultor do Wii Fit Plus. Posso pedir-te que fales mais especificamente do papel que desempenhaste?
Miyachi:
Estive envolvido em vários aspectos do software, mas uma das coisas que fiz foi supervisionar a combinação sugerida de exercícios adequados a pessoas com requisitos específicos, por exemplo, pessoas que estão a tentar perder peso ou que querem dormir melhor de noite.
Iwata:
Referes-te às
Wii Fit Plus Routines que são feitas à medida das necessidades individuais de pessoas que sofrem de problemas como ombros doridos ou dores nas costas.
Wii Fit Plus Routines que são feitas à medida das necessidades individuais de pessoas que sofrem de problemas como ombros doridos ou dores nas costas. Miyachi:
Exacto. Fornece o mesmo tipo de serviço obtido por um treinador que nos ajuda no ginásio. Mas, no caso do Wii Fit Plus, podemos ter esses mesmos conselhos em casa, e penso que isso é algo de muito valor.
Iwata:
Exacto.
Miyachi:
E há mais. Penso que o aspecto mais importante do software é o facto de quando subimos para o Wii Balance Board e treinamos, ele calcula
o número de calorias que queimámos. Além disso, essa informação é mostrada diariamente num gráfico, para que os dados sejam reunidos. O corpo humano é incrivelmente honesto. Isto é, se queimarmos mais calorias, essa quantidade de gordura será eliminada e certamente perdemos peso. Para dar um exemplo concreto, há uma reacção clara, ou seja, se queimarmos 7.000 calorias perdemos cerca de um quilo.
o número de calorias que queimámos. Além disso, essa informação é mostrada diariamente num gráfico, para que os dados sejam reunidos. O corpo humano é incrivelmente honesto. Isto é, se queimarmos mais calorias, essa quantidade de gordura será eliminada e certamente perdemos peso. Para dar um exemplo concreto, há uma reacção clara, ou seja, se queimarmos 7.000 calorias perdemos cerca de um quilo. Iwata:
Esse princípio é sempre obedecido.
Miyachi:
É um princípio sempre obedecido. É um princípio a que, por mais que lutemos, não podemos resistir.
Iwata:
As pessoas que têm tendência a ganhar peso costumam dizer coisas como: "Mesmo que beba só água, continuo a engordar!" (risos) Mas isso não tem qualquer ponta de verdade, pois não?
Miyachi:
Não tem qualquer ponta de verdade.
Iwata:
Se ingerem calorias em excesso e não as queimam...
Miyachi:
Vão engordar.
Iwata:
Por outras palavras, para perder peso, a única alternativa é reduzir a quantidade de calorias ingeridas e/ou aumentar a quantidade de calorias queimadas.
Miyachi:
Exacto. É por isso que penso que ter um gráfico que assinale como estamos a perder peso e mostre ao mesmo tempo o número de calorias que queimamos é algo que vai encorajar bastante o utilizador. No fundo, o facto de o utilizador poder ver porque é que ganhou peso e isso ser algo que o encoraja é uma abordagem nova.

Iwata:
Para permitir calcular com exactidão a quantidade de calorias queimadas ao fazer vários tipos de exercício, tiveste a amabilidade de levar a cabo as medidas de exercício de força.
Miyachi:
Exacto. No Instituto Nacional de Saúde e Nutrição há uma sala especial, conhecida como câmara metabólica6, onde podemos medir a intensidade do exercício. Usámo-la para medir cada tipo de exercício.
| 6 | Semelhante a um quarto de hotel hermético, uma câmara metabólica é um equipamento inovador que permite medir a longo prazo a quantidade de energia usada pelas pessoas num ambiente próximo ao do quotidiano. É também conhecido como Human Calorie Meter. |
Tirar medidas usando a câmara metabólica
Iwata:
Vi muitas vezes imagens de vídeo da forma como mediam a intensidade de um exercício no passado. Havia uma espécie de passadeira e tinham de usar uma máscara como aquelas usadas pelos pilotos de caças, enquanto corriam e respiravam de um modo que parecia bastante desconfortável.
Miyachi:
As pessoas usavam essas máscaras semelhantes às dos pilotos de caça porque o ar exalado era guardado directamente num saco grande para ser analisado. O princípio era que ao medir a quantidade de oxigénio no saco podiam determinar a quantidade usada de gordura e açúcar, logo sabiam quantas quilocalorias tinham sido queimadas.
Equipamento de medição usado no passado
Iwata:
Mediam a quantidade de oxigénio inalada e utilizada pelo corpo, não era?
Miyachi:
Exacto. Mas com a máscara só se podiam medir actividades muito básicas, como caminhar, correr e andar de bicicleta.
Iwata:
Exacto.
Miyachi:
Por exemplo, se pedissem às pessoas que se deitassem de barriga para baixo e se mantivessem na mesma posição ou fizessem posturas de ioga...
Iwata:
A máscara iria atrapalhar.
Miyachi:
Exacto. Além disso, não podiam fazer exercício de uma maneira natural e agradável, como se pode fazer com o Wii Fit. Mas como a câmara metabólica do Instituto Nacional de Saúde e Nutrição tem cerca de nove por seis metros, podemos fazer as medições com as pessoas a usá-lo como se estivessem na sua própria sala.
Iwata:
Por outras palavras, podem ter dados mais realistas.
Miyachi:
É verdade.
Iwata:
Podes falar-me mais sobre a configuração dessa sala?
Miyachi:
O ar novo está em circulação constante na sala, a um ritmo de cerca de 60 litros por minuto. Quando se entra na sala, o ar que se expira é também constantemente absorvido a um ritmo regular. Assim, se fizermos exercício com bastante energia, a quantidade de oxigénio vai diminuir...
Iwata:
A concentração de oxigénio diminui, enquanto a concentração de dióxido de carbono aumenta.
Miyachi:
Exacto. Assim, o consumo de energia é medido através dessa alteração.
Iwata:
Então, foi assim que recolheram os dados para os exercícios do Wii Fit Plus.
Miyachi:
Não foi apenas para o Wii Fit Plus. Passámos dois meses a reunir dados de todas as actividades do Wii Fit original e também do Wii Sports.
Iwata:
Então demoraram dois meses a medir todas as actividades. O que descobriram ao fazer isso?
Miyachi:
Na verdade, foram publicados dois ou três relatórios na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos onde a quantidade de energia gasta a jogar Wii Sports era medida. Mas os métodos usados para fazer essas medições foram diferentes da forma como fizemos a nossa pesquisa e as estimativas de concentração de oxigénio eram baixas. Eram talvez 20 a 30% mais baixas do que as medições que fizemos. Isso acontece porque os movimentos durante os exercícios foram restringidos...
Iwata:
Os movimentos foram restringidos, o que quer dizer que o nível de exercício realizado também foi reduzido.

Miyachi:
Sim, foi reduzido.
Iwata:
Mas se jogarmos de uma forma mais natural e dinâmica...
Miyachi:
Ao usar a câmara metabólica, podemos jogar de uma maneira mais natural e dinâmica que mostra que, até no Wii Fit e no Wii Sports, há um grande número de actividades com valores de três MET ou mais.
Iwata:
MET é um termo que as pessoas provavelmente nunca ouviram antes. Podes ter a amabilidade de explicar a que se refere?
Miyachi:
Com certeza. MET é uma unidade usada para medir a intensidade quando fazemos exercício ou nos movimentamos. Se não nos movimentarmos, temos uma medição de um MET, e se andarmos de bicicleta, por exemplo, gastamos três vezes mais energia, portanto serão três MET. A Associação Americana de Cardiologia e as minhas próprias directivas de exercício recomendam que, ao fazer exercício, o MET seja três ou superior.
Iwata:
Então estás a dizer que após medir os exercícios no Wii Fit, descobriste que gastavam muito mais do que três MET. Por outras palavras, o Wii Fit pode ter um papel muito positivo e fazer parte de um estilo de vida saudável.
Miyachi:
Sim, pode. Quando descobri que até no Wii Fit e no Wii Sports se gastava três MET ou mais, parece que isso influenciou bastante as pessoas na Europa e na América. Penso que é por isso que acredito que as directivas americanas no futuro irão dizer que ao usar apenas o Wii Fit e o Wii Sports é perfeitamente possível fazer a quantidade recomendada de exercício.
5. A Importância de continuar a fazer exercício
Iwata:
Ouvi dizer que recentemente escreveste um artigo sobre o Wii Fit.
Miyachi:
É verdade. Deverá acabar por ser publicado num jornal académico. Comecei a minha investigação há poucos meses, mas sinceramente não esperava que tivesse o tipo de resposta que teve. Não posso entrar em pormenores, mas espero ser capaz de fazer com que os resultados da minha pesquisa sejam conhecidos mundialmente.
Iwata:
Sim?
Miyachi:
Na verdade, não pensei que fosse chamar tanta atenção de todo o mundo. Foi tudo uma grande surpresa.
Iwata:
Bom, há mais pessoas na América e na Europa que usam o Wii Fit do que no Japão. Por isso, a um nível global, houve um grande número de balanças e de software de apoio ao exercício que se espalhou por lares de todo o mundo. Assim, quando um especialista como tu usa provas para mostrar que fazer esse exercício pode trazer benefícios reais, a sua investigação é aplaudida por todo o mundo.
Miyachi:
Sim, penso que é isso que acontece. Naturalmente, o facto de haver um grande número de utilizadores é uma das razões para a escala do impacto, e quando isso é combinado com provas reais e sólidas, como efeito secundário, acredito que influencia o mundo académico dos investigadores.
Iwata:
Na Nintendo, desenvolvemos o conceito do Wii Fit não sendo peritos, sem qualquer conhecimento do mundo da ciência do desporto. Por isso, agora que o software é elogiado por especialistas do ramo, que até dão conselhos sobre a forma de aumentar o valor do programa de exercícios, faz-me sentir que isto que começámos alcançou um outro nível.
Miyachi:
Na verdade, aprendi muito com o Wii Fit, de várias maneiras. Fiquei surpreendido ao saber que estes métodos estavam disponíveis para que as pessoas fizessem actividade física e também que o Wii Fit era capaz de fazer coisas que nós éramos incapazes de alcançar.

Iwata:
Podes dar-nos alguns exemplos disso?
Miyachi:
Falei sobre isso há pouco, mas o Wii Fit diminuiu bastante as barreiras que as pessoas têm quando se trata de exercício. Quando falamos com as pessoas, para as encorajar a fazer exercício, surge sempre uma barreira. Mas com este software, essa barreira diminui drasticamente. Isso mostra que nem sempre as pessoas querem que os outros lhes digam o que devem fazer.
Iwata:
Quando lidam com outra pessoa, quanto menos confiança existe, mais se vão preocupar com o que a outra pessoa pensa delas...
Miyachi:
As pessoas não gostam de ser julgadas pelos outros.
Iwata:
E como não gostam de ser julgadas, tentam muitas vezes evitar as situações, mesmo que saibam que são importantes.
Miyachi:
Exacto. No meu ramo profissional, e não esquecendo os preparadores físicos, a nossa maneira de aconselhar as pessoas sobre o exercício físico tem sido muitas vezes ficar ao lado delas e dizer constantemente: "Faça isto! Faça aquilo! É melhor se fizer assim!" Muitas pessoas acreditam que esse é um bom método de ensino e há muitos que pensam que ao fazer com que as pessoas vão ao ginásio o máximo possível, vão ser capazes de as ensinar melhor.
Iwata:
Pode haver uma espécie de suposição inquestionável por parte dos preparadores físicos que quanto mais intensas e concentradas forem as ordens, melhores serão.
Miyachi:
Creio que é exactamente isso que pensam. Mas não é isso que acontece. Mesmo que só falemos com alguém de três em três meses, por exemplo, se conseguirmos criar um programa em que a pessoa que faz os exercícios consiga perceber o valor do treino, isso é muitas vezes a forma mais benéfica para essa pessoa e é mais fácil cumprir o programa. Sobretudo as pessoas ocupadas, como um pai de meia-idade, têm tendência para conhecer bastante bem a sua pessoa e o seu estilo de vida. Com pessoas assim, em vez de ter um instrutor sempre ao seu lado...
Iwata:
É melhor evitar interferir e deixá-las fazer as coisas à sua maneira o máximo possível.
Miyachi:
Foi por isso que percebi que temos de mudar a maneira como pensamos os nossos conselhos. Sempre tive tendência para falar muito e empurrar as pessoas para fazer as coisas...
Iwata:
(risos)
Miyachi:
Para alguém como eu, que é, no fundo, o modelo de um instrutor de ginásio autoritário, fui capaz de aprender muito com o Wii Fit.
Iwata:
Então percebeste que há outras maneiras de fazer as coisas.
Miyachi:
Foi uma experiência verdadeiramente educativa para mim e percebi que tinha de reavaliar muitas coisas. Foi isso que o Wiibo me ensinou.
Iwata:
(risos)
Miyachi:
Também houve uma outra coisa que me surpreendeu.
Iwata:
O quê?
Miyachi:
Quando soube que ia custar 2.000 ienes, pensei que tinha ouvido mal. (risos) A minha mulher também foi apanhada de surpresa e perguntou: "Custa mesmo 2.000 ienes?"
Iwata:
Decidi-me por esse preço para a versão japonesa do jogo porque queria que todos os clientes que tivessem o Wii Fit continuassem connosco.
Miyachi:
Compreendo.
Iwata:
Se tivesse o mesmo preço de venda de um software normal, penso que no máximo metade desses donos o compraria. Foi por isso que decidimos que queríamos que o máximo de pessoas continuasse e comprasse este software.* *Os preços finais de venda na Europa são determinados pelos revendedores.
Miyachi:
Exacto. Mesmo que as pessoas tenham guardado o Wii Balance Board, com este software vão voltar a pegar nele e serão encorajadas a continuar a usá-lo.
Iwata:
O nosso tema recorrente desta vez foi mesmo a "continuidade".

Miyachi:
Foi, não foi?
Iwata:
Falámos há pouco da diminuição das barreiras, mas na verdade o que fazemos é idêntico. No fim de contas, os videojogos devem ser agradáveis, mas há alturas em que as pessoas os jogam sem parar e outras em que fazem uma pausa.
Miyachi:
Exacto.
Iwata:
Depois há os momentos felizes em que querem continuar a jogar para descobrir o que acontece a seguir, mas nem sempre é assim e, por vezes, quando fazem uma pausa, não voltam a tocar no jogo.
Miyachi:
Exacto, não tocam.
Iwata:
Por isso, penso que criar os jogos de maneira a que as pessoas continuem a jogar é extremamente importante.
Miyachi:
Compreendo. Acontece o mesmo com o exercício físico.
Iwata:
Sim, é verdade. Muito obrigado por teres falado comigo hoje.
Miyachi:
Bom, receio ter tido muito para dizer! (risos) Mas o prazer foi meu. Muito obrigado!





